A Imaculada Conceição
de Maria - Inelfbalis Deus
1. Dificuldades para a compreensão
1.1 – A santidade singular de Jesus
Nos primeiros séculos, o pensamento cristão
se voltou para a absoluta santidade de Jesus, condição para que realizasse sua
obra salvifica. A santidade e a impecabilidade de Jesus foram deduzidas da sua
união hipostática.
1.2 – A Universalidade da Redenção
Não há graça nem salvação que não venham de
Jesus Cristo. Todos são pecadores e foram remidos por Cristo. – Ora, se Maria
foi isenta do pecado original, ela nada deve a Cristo; está fora do plano
salvifico do Pai.
1.3 – O conceito de pecado original originado
Todos admitiam que o pecado dos primeiros
pais acarretasse a morte e graves conseqüências para o gênero humano, (Rm. 5,
12-19; 7, 7-24).
1.4 – Um
problema biológico
Os antigos e medievais julgavam que a semente
vital masculina era o único principio ativo na conceição de um novo ser humano.
O útero da mulher seria um recipiente passivo, uma “incubadora biológica” -
Este principio explicava porque Jesus fora isento do pecado original; não era
filho de S. José, no plano biológico. Maria, porém, nasceria da união
matrimonial de S. Joaquim e Sta. Ana; por conseguinte, não podia ter nascido
sem o pecado original.
1.5 – O momento da infusão da alma humana
Era problema muito antigo a questão: quando
começa a existir um ser humano? Desde o
momento da conceição ou da fecundação do óvulo pelo espermatozóide?
2 – A historia da reflexão teológica
2.1- Até o século V não há testemunho explicito
da imaculada conceição, mas os escritores da Igreja se comprazem em louvar Maria como
santa e pura, exprimindo assim a fé do povo de Deus.
2.2 O avanço do cristianismo e a compreensão
dos elementos da Salvação trouxeram a partir do séc.V, o conflito entre a
piedade da Tradição e a reflexão dos Teólogos da Igreja. O qual se estendeu por
um longo período.
2.3 – Já séc. VII a Igreja celebrava a
Imaculada Conceição de Maria, que se estendeu no ocidente a partir do séc. VIII.
2.4 – Somente no séc. XIV, um franciscano
João Duns Scotus. Intuiu o conceito de Redenção preventiva, em virtude da qual
Maria foi preservada de todo pecado graças aos méritos de Jesus Cristo (e em
previsão deste). Maria, como descendente dos primeiros pais, contraiu o débito
do pecado original, mas foi dispensada das conseqüências desse débito. Duns
Scotus podia assim afirmar que a imaculada conceição de Maria não constitui uma
exceção à obra salvifica de Cristo, mas ao contrário, manifesta por excelência
a eficácia da obra redentora de Cristo. Scotus acrescenta pouco adiante: Deus
não está condicionado pelo tempo; Ele pode ter aplicado antes de Cristo os
méritos que Cristo adquiriria pela sua morte e ressurreição.
3. Bula Inelfbalis Deus 8/12/1854
“Declaramos,
pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina a Bem-aventurada Virgem
Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio
de Deus todo-poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do
gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é
revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com fé firme e constante por
todos os fieis.”( Bula Inelfbalis Deus) .
3.1 O texto da Bula não diz se a doutrina em
foco foi explicita ou implicitamente revelada. Depreende-se, porém dos textos
bíblicos adiante citados que se trata da revelação implícita.
3.2 A razão aduzida em favor do privilegio de Maria são
“os méritos de Cristo Salvador do gênero humano”. Isto quer dizer que Maria foi
remida e pertence à dispensação da graça obtida por Cristo, muito mais rica do
que a graça possuída pelos primeiros pais.
3.3 “Maria foi preservada de toda mancha de
culpa original”. Note-se que nada foi dito a respeito da questão: Maria terá
sido preservada também de todas as conseqüências do pecado de Adão, como são a
dor e a morte? Se Jesus mesmo não quis ser isento destas, Maria também não o
foi. Também nada foi dito sobre a concupiscência de Maria: Terá sido preservada
das tendências desregradas que existem nos demais filhos de Adão em conseqüência
do pecado? Embora muitas petições tenham sido levadas a Pio IX no sentido de
uma tomada de posição a respeito, o Papa não quis pronunciar-se.
Resta porém, que Maria contraiu o débito do
pecado, mas não o pecado mesmo. Esse débito não constitui mancha ou sombra
alguma. Com efeito: se alguém impede outra pessoa de cair num pântano, essa
pessoa não é manchada pelo fato de que teria caído se não fosse a intervenção
alheia.
4 – Fundamentação Bíblica
Não existe na S. escritura, texto explicito
da Imaculada Conceição de Maria.[3] Mas, junto as verdades reveladas, existem elementos
para afirmar o dogma.
4.1 Lc 1, 28: Maria foi kecharitoméne ( = foi
e permaneceu repleta do favor divino), - O anjo não disse “Ave Maria”, mas
“Alegra-te, kecharritoméne”, como se fosse o nome próprio da Virgem. É oportuno
aproximar este texto do único texto do Novo Testamento em que ocorre o mesmo
verbo. “Bendito seja Deus – que nos agraciou (echaritosan) no Amado” (Ef 1,
3.6). Maria vem a ser a primeira e a mais enriquecida de todas as criaturas.
Esta plenitude de graça está ligada à vocação de Maria para ser Mãe do Filho de
Deus feito homem. O pecado, que é sempre um Não dito a Deus, não cabe na
existência de uma mulher que, por designo de Pai, é chamada a colaborar na
vitória sobre o pecado.
4.2 Gn 3, 16 – O Senhor promete inimizade
entre a mulher e a serpente. É certo que, tomando ao pé da letra, o texto se
refere a única mulher do contexto, ou seja a Eva. Todavia a mulher que, por
excelência, deu a luz à prole vencedora da serpente é Maria SS. - Em Maria se
torna pleno o sentido de mulher ou de Eva (= Mãe dos vivos) de que fala Gn 3,
15. O texto também não fala explicitamente de Jesus Cristo, mas refere-se à
perene inimizade que na história existe entre a linhagem dos bons e os que
seguem o tentador. São Paulo, porém, descobriu no primeiro Adão o tipo ou a
figura do segundo Adão (cf Rm 5, 14) e a tradição patristica descobriu em Eva o
tipo ou a figura da segunda Eva (=Maria). Esta tinha de ser santa e alheia ao
pecado para resgatar a primeira Eva, que se entregara à palavra do tentador e
ao pecado; ela está em total inimizade com o sedutor e o pecado.
4.3 Lc 1, 31 – “Conceberás em teu seio”.
Maria tornou-se, em grau vivo e pleno o que eram a tenda do Senhor no deserto e
o Santo dos Santos no templo de Jerusalém. Maria veio a ser também, em termos
excelentes, aquilo que era “a cidade de Jerusalém, o monte Sion do Santo de
Israel; esta morada de Deus inanimada feita de pedras deveria ser pura para que
o Senhor Deus nos tempos messiânicos nela habitasse”. (cf, Ez 37, 23.27) . –
Pois bem; mais importante do que qualquer santuário inerte é o santuário vivo
de Maria Santíssima. Em conseqüência, esta devia ser totalmente pura, isenta de
qualquer mancha de pecado. Se o santuário de Maria não foi santo desde o inicio
de sua existência, ele foi um santuário já possuído e habitado por outro Senhor
(pelo Príncipe deste mundo; cf Jô 12,31) o Filho de Deus não teria podido
reconhecer nele a santidade e a beleza próprias de sua casa; contentar-se-ia
com o ser o “segundo” Senhor do seu próprio Templo.
4.4 O povo de Israel, esposa do Senhor Deus.
Ao pé do monte Sinai o povo de Israel foi chamado a concluir uma Aliança com o
Senhor, que o tirara do Egito. O dia em que isto se deu, foi considerado dia de
núpcias entre Deus e seu povo. Os rabinos muito refletiam sobre tal
acontecimento: afirmavam que o Senhor havia preparado Israel como esposa sem
mancha para dizer o seu Sim à Lei de Deus
5. – Reflexão Teológica
A graça da Imaculada Conceição não foi um mero
ornamento cedido por Deus a Maria, mas há de ser considerada dentro do mistério
da Redenção e da Igreja.
5.1 – No contexto da Redenção
É preciso contemplar cada verdade de fé no
conjunto das demais verdades reveladas. Ora pode-se dizer que a Imaculada Conceição
possibilitou a Maria uma total entrega à obra de seu Filho em favor dos homens.
Sim; esta entrega total encontraria obstáculo no egoísmo do pecado. Maria,
sendo cheia de graça (ou do amor que a preservava de se fechar em si mesma e em
seus próprios interesses), pôde entregar-se plenamente ao plano redentor do
Pai. Pôde abrir seu coração, em nome da humanidade pecadora, à salvação
messiânica que o Pai oferecia ao gênero humano. Assim, a conceição imaculada de
Maria foi à preparação, arquitetada pelo próprio Espírito Santo, para tornar
possível o SIM generoso da Anunciação. É o que o Concilio do Vaticano II
lembra:
“Maria filha de Adão, consentindo na palavra
de Deus, foi feita Mãe de Jesus. E abraçando a vontade salvifica de Deus, com
coração pleno, não retida por algum pecado, consagrou-se totalmente como Serva
do Senhor à pessoa e obra de seu Filho, servindo com Ele e sob Ele, por graça
de Deus Onipotente, ao mistério da Redenção. Por isso é com razão que os Santos
Padres julgam que Deus não se serviu de Maria como de instrumento passivo, mas
afirmam que Maria cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência
(Lumem Gentium n0 56)”.
5.2 – A graça de Maria, esperança da Igreja
A graça concedida a Maria foi concedida em
favor de todos os homens. O Santo Padre João Paulo II desenvolve esta reflexão:
Maria está no centro da inimizade com a serpente antiga, em solidariedade com
todos os seus irmãos:
“Maria fica sendo ... o sinal imutável e
inviolável da escolha feita por Deus ... Esta escolha é mais forte do que toda
a experiência do mal e do pecado...Na historia da humanidade Maria continua a
ser um sinal de esperança segura ( Lumem Gentium 11).
Mais: a graça recebida apor Maria sem mérito
próprio da Virgem Santíssima nos diz que toda a historia da humanidade está sob
o signo não da desgraça e da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que
o pecado. Se nós caímos sobe o domínio do pecado por fragilidade nossa, não
estamos sujeitos, sem remédio, a tal domínio. Somos as criaturas que Deus desde
todo o sempre ama, e que Ele procurou recuperar na plenitude dos tempos, antes
mesmo que alguém o pudesse merecer. O cristão é, portanto, otimista e
esperançoso quanto ao sentido da historia. Verdade é que Maria foi preservada
do pecado, ao passo que nós fomos perdoados (ou recebemos o perdão). Todavia,
no fundo, trata-se da mesma graça divina: é a Redenção realizada por Cristo.
Quando pedimos no Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”, rogamos que
Ele nos preserve como preservou Maria.
Fontes
Consultadas:
Catecismo da Igreja Católica, Edição Típica Vaticana.
São Paulo: Loyola. 2000. 310
Com Maria a Mãe de Jesus/ Murilo S.R. Krieger - São
Paulo: Paulinas, 2001.
Quem És Tu, Maria?Jean Claude Michel
– São Paulo: Ave Maria. 1996.
http://www.divinoespiritosanto.org/serie_maria.htm
www.catequistabrunovelasco.com
Documentos do Concílio Vaticano II.
Documentos da Igreja. São Paulo: Paulus. 1997.
DONFRIED, K. P. Maria no Novo
Testamento. São Paulo: Paulinas. 1985.
LAURENTIN, R. Breve tratado de
teologia mariana. Rio de Janeiro: Vozes. 1965.
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