segunda-feira, 6 de maio de 2013

Imaculada Conceição - Escola de Maria


A Imaculada Conceição de Maria - Inelfbalis Deus   

1. Dificuldades para a compreensão
1.1 – A santidade singular de Jesus
Nos primeiros séculos, o pensamento cristão se voltou para a absoluta santidade de Jesus, condição para que realizasse sua obra salvifica. A santidade e a impecabilidade de Jesus foram deduzidas da sua união hipostática.
1.2 – A Universalidade da Redenção
Não há graça nem salvação que não venham de Jesus Cristo. Todos são pecadores e foram remidos por Cristo. – Ora, se Maria foi isenta do pecado original, ela nada deve a Cristo; está fora do plano salvifico do Pai.
1.3 – O conceito de pecado original originado
Todos admitiam que o pecado dos primeiros pais acarretasse a morte e graves conseqüências para o gênero humano, (Rm. 5, 12-19; 7, 7-24).
 1.4 – Um problema biológico
Os antigos e medievais julgavam que a semente vital masculina era o único principio ativo na conceição de um novo ser humano. O útero da mulher seria um recipiente passivo, uma “incubadora biológica” - Este principio explicava porque Jesus fora isento do pecado original; não era filho de S. José, no plano biológico. Maria, porém, nasceria da união matrimonial de S. Joaquim e Sta. Ana; por conseguinte, não podia ter nascido sem o pecado original.
1.5 – O momento da infusão da alma humana
Era problema muito antigo a questão: quando começa a existir um ser humano?  Desde o momento da conceição ou da fecundação do óvulo pelo espermatozóide?
2 – A historia da reflexão teológica
2.1- Até o século V não há testemunho explicito da imaculada conceição, mas os escritores da Igreja se comprazem em louvar Maria como santa e pura, exprimindo assim a fé do povo de Deus.
2.2 O avanço do cristianismo e a compreensão dos elementos da Salvação trouxeram a partir do séc.V, o conflito entre a piedade da Tradição e a reflexão dos Teólogos da Igreja. O qual se estendeu por um longo período.
2.3 – Já séc. VII a Igreja celebrava a Imaculada Conceição de Maria, que se estendeu no ocidente  a partir do séc. VIII. 
2.4 – Somente no séc. XIV, um franciscano João Duns Scotus. Intuiu o conceito de Redenção preventiva, em virtude da qual Maria foi preservada de todo pecado graças aos méritos de Jesus Cristo (e em previsão deste). Maria, como descendente dos primeiros pais, contraiu o débito do pecado original, mas foi dispensada das conseqüências desse débito. Duns Scotus podia assim afirmar que a imaculada conceição de Maria não constitui uma exceção à obra salvifica de Cristo, mas ao contrário, manifesta por excelência a eficácia da obra redentora de Cristo. Scotus acrescenta pouco adiante: Deus não está condicionado pelo tempo; Ele pode ter aplicado antes de Cristo os méritos que Cristo adquiriria pela sua morte e ressurreição.

3. Bula Inelfbalis Deus    8/12/1854

 “Declaramos, pronunciamos e definimos que a doutrina que ensina a Bem-aventurada Virgem Maria, no primeiro instante de sua conceição, por singular graça e privilégio de Deus todo-poderoso e em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original, é revelada por Deus e, por isto, deve ser professada com fé firme e constante por todos os fieis.”( Bula Inelfbalis Deus) .
3.1 O texto da Bula não diz se a doutrina em foco foi explicita ou implicitamente revelada. Depreende-se, porém dos textos bíblicos adiante citados que se trata da revelação implícita.
3.2 A razão aduzida em favor do privilegio de Maria são “os méritos de Cristo Salvador do gênero humano”. Isto quer dizer que Maria foi remida e pertence à dispensação da graça obtida por Cristo, muito mais rica do que a graça possuída pelos primeiros pais.
3.3 “Maria foi preservada de toda mancha de culpa original”. Note-se que nada foi dito a respeito da questão: Maria terá sido preservada também de todas as conseqüências do pecado de Adão, como são a dor e a morte? Se Jesus mesmo não quis ser isento destas, Maria também não o foi. Também nada foi dito sobre a concupiscência de Maria: Terá sido preservada das tendências desregradas que existem nos demais filhos de Adão em conseqüência do pecado? Embora muitas petições tenham sido levadas a Pio IX no sentido de uma tomada de posição a respeito, o Papa não quis pronunciar-se.
Resta porém, que Maria contraiu o débito do pecado, mas não o pecado mesmo. Esse débito não constitui mancha ou sombra alguma. Com efeito: se alguém impede outra pessoa de cair num pântano, essa pessoa não é manchada pelo fato de que teria caído se não fosse a intervenção alheia.
4 – Fundamentação Bíblica
Não existe na S. escritura, texto explicito da Imaculada Conceição de Maria.[3] Mas,  junto as verdades reveladas, existem elementos para afirmar o dogma.
4.1 Lc 1, 28: Maria foi kecharitoméne ( = foi e permaneceu repleta do favor divino), - O anjo não disse “Ave Maria”, mas “Alegra-te, kecharritoméne”, como se fosse o nome próprio da Virgem. É oportuno aproximar este texto do único texto do Novo Testamento em que ocorre o mesmo verbo. “Bendito seja Deus – que nos agraciou (echaritosan) no Amado” (Ef 1, 3.6). Maria vem a ser a primeira e a mais enriquecida de todas as criaturas. Esta plenitude de graça está ligada à vocação de Maria para ser Mãe do Filho de Deus feito homem. O pecado, que é sempre um Não dito a Deus, não cabe na existência de uma mulher que, por designo de Pai, é chamada a colaborar na vitória sobre o pecado.
4.2 Gn 3, 16 – O Senhor promete inimizade entre a mulher e a serpente. É certo que, tomando ao pé da letra, o texto se refere a única mulher do contexto, ou seja a Eva. Todavia a mulher que, por excelência, deu a luz à prole vencedora da serpente é Maria SS. - Em Maria se torna pleno o sentido de mulher ou de Eva (= Mãe dos vivos) de que fala Gn 3, 15. O texto também não fala explicitamente de Jesus Cristo, mas refere-se à perene inimizade que na história existe entre a linhagem dos bons e os que seguem o tentador. São Paulo, porém, descobriu no primeiro Adão o tipo ou a figura do segundo Adão (cf Rm 5, 14) e a tradição patristica descobriu em Eva o tipo ou a figura da segunda Eva (=Maria). Esta tinha de ser santa e alheia ao pecado para resgatar a primeira Eva, que se entregara à palavra do tentador e ao pecado; ela está em total inimizade com o sedutor e o pecado.
4.3 Lc 1, 31 – “Conceberás em teu seio”. Maria tornou-se, em grau vivo e pleno o que eram a tenda do Senhor no deserto e o Santo dos Santos no templo de Jerusalém. Maria veio a ser também, em termos excelentes, aquilo que era “a cidade de Jerusalém, o monte Sion do Santo de Israel; esta morada de Deus inanimada feita de pedras deveria ser pura para que o Senhor Deus nos tempos messiânicos nela habitasse”. (cf, Ez 37, 23.27) . – Pois bem; mais importante do que qualquer santuário inerte é o santuário vivo de Maria Santíssima. Em conseqüência, esta devia ser totalmente pura, isenta de qualquer mancha de pecado. Se o santuário de Maria não foi santo desde o inicio de sua existência, ele foi um santuário já possuído e habitado por outro Senhor (pelo Príncipe deste mundo; cf Jô 12,31) o Filho de Deus não teria podido reconhecer nele a santidade e a beleza próprias de sua casa; contentar-se-ia com o ser o “segundo” Senhor do seu próprio Templo.
4.4 O povo de Israel, esposa do Senhor Deus. Ao pé do monte Sinai o povo de Israel foi chamado a concluir uma Aliança com o Senhor, que o tirara do Egito. O dia em que isto se deu, foi considerado dia de núpcias entre Deus e seu povo. Os rabinos muito refletiam sobre tal acontecimento: afirmavam que o Senhor havia preparado Israel como esposa sem mancha para dizer o seu Sim à Lei de Deus
5. – Reflexão Teológica
A graça da Imaculada Conceição não foi um mero ornamento cedido por Deus a Maria, mas há de ser considerada dentro do mistério da Redenção e da Igreja.
5.1 – No contexto da Redenção
É preciso contemplar cada verdade de fé no conjunto das demais verdades reveladas. Ora pode-se dizer que a Imaculada Conceição possibilitou a Maria uma total entrega à obra de seu Filho em favor dos homens. Sim; esta entrega total encontraria obstáculo no egoísmo do pecado. Maria, sendo cheia de graça (ou do amor que a preservava de se fechar em si mesma e em seus próprios interesses), pôde entregar-se plenamente ao plano redentor do Pai. Pôde abrir seu coração, em nome da humanidade pecadora, à salvação messiânica que o Pai oferecia ao gênero humano. Assim, a conceição imaculada de Maria foi à preparação, arquitetada pelo próprio Espírito Santo, para tornar possível o SIM generoso da Anunciação. É o que o Concilio do Vaticano II lembra:
“Maria filha de Adão, consentindo na palavra de Deus, foi feita Mãe de Jesus. E abraçando a vontade salvifica de Deus, com coração pleno, não retida por algum pecado, consagrou-se totalmente como Serva do Senhor à pessoa e obra de seu Filho, servindo com Ele e sob Ele, por graça de Deus Onipotente, ao mistério da Redenção. Por isso é com razão que os Santos Padres julgam que Deus não se serviu de Maria como de instrumento passivo, mas afirmam que Maria cooperou para a salvação humana com livre fé e obediência (Lumem Gentium n0 56)”.
5.2 – A graça de Maria, esperança da Igreja
A graça concedida a Maria foi concedida em favor de todos os homens. O Santo Padre João Paulo II desenvolve esta reflexão: Maria está no centro da inimizade com a serpente antiga, em solidariedade com todos os seus irmãos:
“Maria fica sendo ... o sinal imutável e inviolável da escolha feita por Deus ... Esta escolha é mais forte do que toda a experiência do mal e do pecado...Na historia da humanidade Maria continua a ser um sinal de esperança segura ( Lumem Gentium 11).
Mais: a graça recebida apor Maria sem mérito próprio da Virgem Santíssima nos diz que toda a historia da humanidade está sob o signo não da desgraça e da condenação, mas da misericórdia, mais forte do que o pecado. Se nós caímos sobe o domínio do pecado por fragilidade nossa, não estamos sujeitos, sem remédio, a tal domínio. Somos as criaturas que Deus desde todo o sempre ama, e que Ele procurou recuperar na plenitude dos tempos, antes mesmo que alguém o pudesse merecer. O cristão é, portanto, otimista e esperançoso quanto ao sentido da historia. Verdade é que Maria foi preservada do pecado, ao passo que nós fomos perdoados (ou recebemos o perdão). Todavia, no fundo, trata-se da mesma graça divina: é a Redenção realizada por Cristo. Quando pedimos no Pai Nosso: “Não nos deixeis cair em tentação”, rogamos que Ele nos preserve como preservou Maria.

Fontes Consultadas:
Catecismo da Igreja Católica, Edição Típica Vaticana. São Paulo: Loyola. 2000. 310
Com Maria a Mãe de Jesus/ Murilo S.R. Krieger - São Paulo: Paulinas, 2001.
Quem És Tu, Maria?Jean Claude Michel – São Paulo: Ave Maria. 1996.
http://www.divinoespiritosanto.org/serie_maria.htm
www.catequistabrunovelasco.com
Documentos do Concílio Vaticano II. Documentos da Igreja. São Paulo: Paulus. 1997.
DONFRIED, K. P. Maria no Novo Testamento. São Paulo: Paulinas. 1985.
LAURENTIN, R. Breve tratado de teologia mariana. Rio de Janeiro: Vozes. 1965.

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