Mãe de Deus (Theotokos)
Síntese do Artigo “ Maternidade divina de Maria - André
Phillipe Pereira[1]”
“A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de
Deus.” (Catecismo da Igreja Católica, §495)
1. Lex orandi, Lex credendi
O dogma mariano desenvolveu-se lentamente ao longo de
toda história da Igreja. O uso do termo Theotokos foi formalmente
afirmado como dogma no Terceiro Concílio Ecumênico realizado em Éfeso, em 431.
2. Sagrada Escritura
O Titulo de “Mãe de Deus” nos é apresentado em
diversas passagens da Sagrada Escritura e a semelhança do Dogma a respeito da
Virgindade Perpetua de Nossa Senhora possuem fortes referencias na Sagrada
Escritura.
·
A saudação do anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo. (Lc.
1:28).
·
O anúncio da Encarnação: Eis que conceberás no teu seio e darás à luz
um filho a quem porás o nome de Jesus. (Lc. 1:30-33).
·
Por obra e graça do Espírito Santo: O Espírito Santo descerá sobre ti e
o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o que nascer
será chamado Santo, Filho de Deus. (Lc. 1:35-37).
·
Por Cristo na Cruz: Jesus, vendo a sua Mãe e, junto d'Ela, o discípulo
que amava, disse à sua Mãe: "Mulher, eis aí o teu filho." Depois
disse ao discípulo: "Eis aí a tua Mãe." E daquela hora em diante o
discípulo a levou para sua casa. (Jô.19:26-27)
3. Compreensão Histórica
A fé católica
na maternidade divina de Maria é professada, já desde o começo do séc. II, de
forma clara, por Santo Inácio de Antioquia, São Justino, Santo Irineu e pelos
grandes do séc. III. É provável que o título de Mãe de Deus (Theotokos) tivesse
já sido usado por Hipólito de Roma e Orígenes, mas de qualquer forma, já
aparece nos textos cristãos no fim do século terceiro, início do quarto,
principalmente nos escritos de Alexandre de Alexandria, a julgar pela
antiqüíssima oração: “Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genitrix”,
reagindo à doutrina de Ário.
O título Theotokos,
é o mais compreensível vocábulo inventado no oriente para designar Maria
no cristianismo do Oriente e, na opinião de muitos, o mais problemático. Esse
título não possuía o significado simples de Mãe de Deus, como é traduzido
usualmente nas línguas ocidentais, mas o significado mais preciso e completo é
“aquela que deu à luz Deus”
(PELIKAN, 1996, p. 83).
Este título se espalhou entre a Igreja do oriente. Em
428, Nestório o questiona indo contra o título tradicional. “Nestório era Patriarca de Constantinopla,
bispo famoso como orador sacro, como líder organizador, como conhecedor das escrituras.
Ensinava que Maria era só mãe do Cristo-homem, porque lhe parecia absurdo uma
criatura ser mãe do criador e assim achava que melhor se chamássemos a Virgem
Maria como Chrisotokos, ou seja, Mãe de Cristo.
O Concílio de Éfeso (431) declarou herética a posição
de Nestório que, humildemente, se retirou da vida pública e voltou à vida que
levava antes de ser Bispo e patriarca, a vida de monge.” (NEOTTI, 2004, p. 25).
Este título é fruto de uma experiência de fé que se
tornou consciente de tudo o que implicava a confissão de Jesus Cristo, Filho de
Deus e Deus. “Jesus é título pessoal,
Filho de Deus, Maria, sua Mãe, é efetivamente Mãe de Deus. Ela não é,
evidentemente, Mãe de sua divindade: Deus, como Deus, não pode, por hipótese,
ter mãe. Maria é Mãe do Verbo encarnado: é aquela que, por geração, lhe deu sua
humanidade. Mas Aquele que foi carnal e humanamente gerado nela é o próprio
Filho de Deus, que assim tornou-se o Filho de Maria (SESBOÜÉ 2005, p. 482).
Contrariando a
Tradição comum da Igreja, que como sabemos é enraizada na Sagrada Escritura,
Nestório se posiciona afirmando que não. Mas não se poderia dizer que o Verbo
de Deus morreu na cruz se não se afirmasse, antes, que o mesmo foi gerado por
Maria. Se assim for, nesse caso interpõem uma separação concreta entre o Verbo
de Deus e o Homem Jesus.
Esse ponto que
causando confusão e escândalo em 428, levou à convocação do concílio de Éfeso
em 431, cujo principal problema levantado era Cristológico. Como vimos o Concílio de Éfeso teve três
assuntos, nós nos voltaremos aqui apenas em sua dimensão propriamente mariana.
A maternidade divina de Maria foi solenemente
proclamada no Concílio de Éfeso em 431, tornando dogmaticamente oficial aquilo
que a devoção popular já afirmara.
Nas palavras do primeiro Anatematismo de Cirilo de
Alexandria contra Nestório: “se alguém não confessar que Emanuel é
verdadeiramente Deus e que portanto a Santa Virgem é a Mãe de Deus (Theotokos),
pois que dela nasceu de modo carnal e como a Palavra de Deus revestida de
carne, que seja excomungado”. Além disso, foi em honra da proclamação de Maria
como Theotokos pelo Concílio de Éfeso que, logo após esse sínodo, o Papa Sixto
III constituiu o mais importante santuário dedicado a Maria no Ocidente, a
Basílica de Santa Maria Maior, em Roma (PELIKAN, 1996, p. 84).
Ensinamos, segundo a reta doutrina, que a gloriosa,
santa e sempre Virgem Maria é proclamada, pelos católicos, própria e
verdadeiramente, Mãe de Deus e Mãe do Verbo de Deus, nela encarnado. Ele, de
fato, nos últimos tempos, se encarnou, própria e verdadeiramente, dignando-se
nascer da santa e gloriosa Virgem-Mãe. Se, portanto, o Filho de Deus nela Se
encarnou, própria e verdadeiramente, e dela nasceu, por essa mesma razão
confessamos que ela é, própria e verdadeiramente, Mãe de Deus, que nela Se
encarnou e dela nasceu. E, na realidade, não se pense que o Senhor Jesus
recebeu, por honra ou graça, o nome de Deus, como achava o tolo Nestório; como
também verdadeiramente não se vá pensar que ele tomou da Virgem, não um corpo
humano, mas uma aparência de corpo ou qualquer coisa de irreal (Carta Olim
quidem de João II, apud COLLANTES, 2003, p. 392).
A verdade é que o novo realce dado a esse título levou
os crentes a considerar com maior devoção a grandeza de Maria e seu papel junto
de seu Filho. A maternidade divina de Maria constitui a mais alta missão,
depois da que recebeu Cristo, na face da terra, e esta missão exige a graça
divina em toda a sua plenitude.
Na verdade, desta sublime missão de Mãe de Deus
nascem, como duma misteriosa e limpidíssima fonte, todos os privilégios e
graças, que adornam, duma forma admirável e numa abundância extraordinária, a
sua alma e a sua vida. Por isso, com razão declara Santo Tomás de Aquino que a
Bem-Aventurada Virgem Maria, pelo fato de ser Mãe de Deus, recebe do bem
infinito, que é Deus, uma certa dignidade infinita (NEOTTI, 2004, p. 26).
A partir do Concílio de Éfeso, a maternidade divina de
Maria é doutrina da Igreja, por isso desde esse Concílio as gerações começam a
proclamar Bem-aventurada a Virgem Santíssima, Santa Mãe de Deus.
No encerramento do Concílio de Éfeso, estando a cidade
cheia do povo com tochas nas mãos para uma grande procissão em honra da Mãe de
Deus, um anônimo redigiu uma oração que um dos bispos proclamou, e
transcrevendo-a aqui encerro este item.
“Nós vos saudamos Maria, Mãe de Deus, tesouro
Venerável do mundo inteiro! Luz jamais extinta! Templo jamais destruído, que
abrigais Aquele que não pode ser contido! Mãe e Virgem! Por vós a Trindade é
santificada! Por vós a Cruz é venerada no mundo inteiro! Por vós o santo
Batismo é dado aos que crêem! Por vós é derramado o óleo da alegria! Por vós as
igrejas são fundadas no mundo inteiro! Por vós os povos são conduzidos à
conversão. Amém!” (NEOTTI, 2004, p. 26).
4. Maria a Santa Mãe de Deus no Concílio
Vaticano II
“Que sublime humildade, é escolhida para ser Mãe de
Deus e se proclama a serva.” (São Bernardo de Claraval).
Em diferentes ocasiões, o magistério da Igreja
considerou a missão educativa de Maria, abordando os vários aspectos desta
missão, o Concílio Vaticano II deu-nos um critério fundamental para formular
retamente a doutrina mariana, como afirma Autran, “a fidelidade à Sagrada
Escritura do jeito como ela é lida e interpretada pela Igreja” (1992, p. 14). A
Constituição Dogmática Lumen Gentium principalmente nos números 55 a 59 é um exemplo eloqüente
de como propor a figura de Maria e falar dela à luz da palavra de Deus descrita
na Bíblia. Vou fixar este item nesta Constituição Dogmática.
Num momento de extrema importância da renovação
eclesial, a Virgem Maria aparece, na Lumen Gentium, como estrela, como sinal
para a nova humanidade, renascida e fortalecida em Jesus Cristo e no Seu
mistério de amor. Avelar afirma que “é no quadro mais amplo da História da
Salvação que, neste documento conciliar, a vocação-missão educativa da Mãe de
Jesus emerge em toda a sua grandeza” (2002, p. 71).
Querendo Deus, sumamente benigno e sábio, realizar a
redenção do mundo, “quando chegou a plenitude dos tempos, mandou o seu Filho,
nascido de mulher... para que recebêssemos a adoção de filhos” (GL 4,4-5). “O
qual, por amor de nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e se
encarnou pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria”9. Este mistério
divino da salvação nos é revelado e continuado na Igreja, que o Senhor
constituiu como seu corpo, e na qual os fiéis que aderem a Cristo, sua cabeça e
estão em comunhão com todos os seus santos, devem também, e “em primeiro lugar,
venerar a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e de Nosso
Senhor Jesus Cristo”10 (LG, 52).
Enquanto o Concílio Vaticano II, fala explicitamente
da maternidade de Maria, aponta para a dimensão pedagógica da existência
daquela que, ao gerar à vida o Salvador, torna-se, inevitavelmente, mãe e
mestra da nova humanidade, mãe e mestra espiritual de todos os seguidores de
Jesus, mãe e mestra da Igreja.
Assim, o Concílio Vaticano II ampliou o horizonte de
compreensão da maternidade de Maria. Renovou a interpretação de Maria e de sua
missão ao utilizar critérios antropológicos, uma vez que põe Maria muito
próxima de Deus e também muito próxima dos filhos de Deus (AVELAR, 2002, p.
72).
No número 53 da Lumen Gentium, o Concílio nos mostra
que a Virgem Maria, na anunciação do anjo recebeu o Verbo de Deus, recebeu no
seu coração e também no seu corpo, dando a vida ao mundo, é reconhecida e
honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. “...foi enriquecida com a
sublime prerrogativa e dignidade de Mãe de Deus Filho...”, e a Igreja católica
honra-a como mãe amantíssima, dedicando-lhe afeto e piedade.
A Bem-Aventurada Virgem, predestinada, desde toda a
eternidade, junto com a encarnação do Verbo divino, para ser Mãe de Deus, foi
na terra, por disposição da divina providência, a Mãe do Redentor divino, mais
que ninguém sua companheira generosa e a humilde escrava do Senhor.
O Concílio quer esclarecer a função da Bem-Aventurada
Virgem no mistério do Verbo encarnado e do corpo místico e os deveres dos
homens para com a Mãe de Deus, “que é Mãe de Cristo e dos homens, em especial
dos fiéis” (LG 54). 308
A Virgem Maria que foi adornada, desde sua conceição,
com as belas virtudes e grau de santidade, quando ouviu a saudação do anjo que
Deus enviara e que chamou-a “cheia de graça”11, prontamente responde “Eis a
escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”12. “Assim Maria, filha
de Adão, consentindo na palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus...” (LG 56).
Portanto, como afirmam os Santos Padres, Maria
cooperou na obra da salvação de todos os homens com a liberdade da fé e
obediência plena. Compararam dizendo que “a morte veio por Eva, e a vida por
Maria” (LG 66). O Concílio Vaticano II, é bastante explícito em ressaltar o
aspecto educativo da vida de Maria que, gerando na terra o próprio Filho de
Deus Pai, pela fé e pela obediência, exerce a missão da maternidade divina,
mediante a qual ela se torna também mãe, educadora e modelo da Igreja.
Essa função de Maria começou desde o início, já quando
Maria estava com Deus em seu ventre. Ao visitar Isabel, leva o Senhor, e Isabel
a proclama bem-aventurada porque acreditou na promessa de salvação. Essa função
continua quando a Virgem Mãe apresenta seu Filho aos Magos, os quais O adoram.
Ao apresentar o Menino no templo, da boca do Simeão brota a profecia da
Redenção. Quando o Menino ficou no templo sozinho, Maria e José O encontram e
Ele diz que estava se ocupando das coisas de seu Pai, ou seja, nossa salvação.
Enquanto todas essas cosias aconteciam a Virgem Mãe guardava todas as coisas em
seu coração como sabemos a partir do Evangelho.
Assim também a bem-aventurada Virgem avançou no
caminho da fé, e conservou fielmente a união com seu Filho até a cruz, junto da
qual, por desígnio de Deus, se manteve de pé13, sofreu profundamente com o seu
Unigênito e associou-se de coração maternal ao seu sacrifício, consentindo
amorosamente na imolação da vítima que havia gerado. (LG 58).
Enfim, Maria concebeu a Cristo, gerando-O,
alimentando-O, apresentando-O no templo do Pai, sofrendo com seu Filho que
morria na cruz, cooperando de modo absolutamente singular na obra do Salvador
para restaurar a vida sobrenatural dos fiéis.
Fontes.
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Attar Editorial. 2003.
AUTRAN, A. M. Maria na Bíblia. São Paulo: Ave Maria.
1992.
BUCKER, B.; BOFF, L.; AVELAR, M. C. Maria e a Trindade.
São Paulo: Paulus. 2002.
Catecismo da Igreja Católica, Edição Típica Vaticana.
São Paulo: Loyola. 2000. 310
COLLANTES, J. A fé católica, documentos do magistério
da Igreja. Goiás; Rio de Janeiro: 2003.
Documentos da Igreja. Encíclicas de João Paulo II. São
Paulo: Paulus. 1997.
Documentos do Concílio Vaticano II. Documentos da
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DONFRIED, K. P. Maria no Novo Testamento. São Paulo:
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LAURENTIN, R. Breve tratado de teologia mariana. Rio
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MULLER, A. SATTLER, D. Mariologia. In: SCHNEIDER, T.
(Org). Manual de dogmática. v. l. 3. 2. Ed. Petrópolis: Vozes. 2002.
NEOTTI, C. Imaculada Conceição de Maria. 150 anos da
Proclamação do dogma. Rio de Janeiro: Marques Saraiva. 2004.
PELIKAN, J. Maria através dos séculos. Seu papel na
história da cultura. São Paulo: Companhia das Letras. 1996.
ROPS, D. A Igreja dos apóstolos e mártires. São Paulo:
Quadrante. 1988
SESBOÜÉ, B., A Virgem Maria. In SESBOÜÉ, B.; BOUGEOIS,
H.; TIHON, P. (Dir.), Os sinais da salvação (séculos XII – XX). A História dos
Dogmas, v. 3. São Paulo: Loyola. 2005.
[1]Mestrando em Teologia na PUCPR. Bacharel em Teologia
pela PUCPR. Bolsista CAPES-PROSUP.
E-mail:
andpp@bol.com.br.
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