segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mãe de Deus (Theotokos)


Mãe de Deus (Theotokos)

Síntese do Artigo “ Maternidade divina de Maria - André Phillipe Pereira[1]
“A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus.” (Catecismo da Igreja Católica, §495)
1. Lex orandi, Lex credendi
O dogma mariano desenvolveu-se lentamente ao longo de toda história da Igreja. O uso do termo Theotokos foi formalmente afirmado como dogma no Terceiro Concílio Ecumênico realizado em Éfeso, em 431.
2. Sagrada Escritura
O Titulo de “Mãe de Deus” nos é apresentado em diversas passagens da Sagrada Escritura e a semelhança do Dogma a respeito da Virgindade Perpetua de Nossa Senhora possuem fortes referencias na Sagrada Escritura.
·        A saudação do anjo: Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo. (Lc. 1:28).
·        O anúncio da Encarnação: Eis que conceberás no teu seio e darás à luz um filho a quem porás o nome de Jesus. (Lc. 1:30-33).
·        Por obra e graça do Espírito Santo: O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o que nascer será chamado Santo, Filho de Deus. (Lc. 1:35-37).
·        Por Cristo na Cruz: Jesus, vendo a sua Mãe e, junto d'Ela, o discípulo que amava, disse à sua Mãe: "Mulher, eis aí o teu filho." Depois disse ao discípulo: "Eis aí a tua Mãe." E daquela hora em diante o discípulo a levou para sua casa. (Jô.19:26-27)
3. Compreensão Histórica
  A fé católica na maternidade divina de Maria é professada, já desde o começo do séc. II, de forma clara, por Santo Inácio de Antioquia, São Justino, Santo Irineu e pelos grandes do séc. III. É provável que o título de Mãe de Deus (Theotokos) tivesse já sido usado por Hipólito de Roma e Orígenes, mas de qualquer forma, já aparece nos textos cristãos no fim do século terceiro, início do quarto, principalmente nos escritos de Alexandre de Alexandria, a julgar pela antiqüíssima oração: “Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genitrix”, reagindo à doutrina de Ário.
O título Theotokos,  é o mais compreensível vocábulo inventado no oriente para designar Maria no cristianismo do Oriente e, na opinião de muitos, o mais problemático. Esse título não possuía o significado simples de Mãe de Deus, como é traduzido usualmente nas línguas ocidentais, mas o significado mais preciso e completo é “aquela que deu à luz Deus” (PELIKAN, 1996, p. 83).
Este título se espalhou entre a Igreja do oriente. Em 428, Nestório o questiona indo contra o título tradicional.  “Nestório era Patriarca de Constantinopla, bispo famoso como orador sacro, como líder organizador, como conhecedor das escrituras. Ensinava que Maria era só mãe do Cristo-homem, porque lhe parecia absurdo uma criatura ser mãe do criador e assim achava que melhor se chamássemos a Virgem Maria como Chrisotokos, ou seja, Mãe de Cristo.
O Concílio de Éfeso (431) declarou herética a posição de Nestório que, humildemente, se retirou da vida pública e voltou à vida que levava antes de ser Bispo e patriarca, a vida de monge.” (NEOTTI, 2004, p. 25).
Este título é fruto de uma experiência de fé que se tornou consciente de tudo o que implicava a confissão de Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus.  “Jesus é título pessoal, Filho de Deus, Maria, sua Mãe, é efetivamente Mãe de Deus. Ela não é, evidentemente, Mãe de sua divindade: Deus, como Deus, não pode, por hipótese, ter mãe. Maria é Mãe do Verbo encarnado: é aquela que, por geração, lhe deu sua humanidade. Mas Aquele que foi carnal e humanamente gerado nela é o próprio Filho de Deus, que assim tornou-se o Filho de Maria (SESBOÜÉ 2005, p. 482).
 Contrariando a Tradição comum da Igreja, que como sabemos é enraizada na Sagrada Escritura, Nestório se posiciona afirmando que não. Mas não se poderia dizer que o Verbo de Deus morreu na cruz se não se afirmasse, antes, que o mesmo foi gerado por Maria. Se assim for, nesse caso interpõem uma separação concreta entre o Verbo de Deus e o Homem Jesus.
 Esse ponto que causando confusão e escândalo em 428, levou à convocação do concílio de Éfeso em 431, cujo principal problema levantado era Cristológico.  Como vimos o Concílio de Éfeso teve três assuntos, nós nos voltaremos aqui apenas em sua dimensão propriamente mariana.
A maternidade divina de Maria foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso em 431, tornando dogmaticamente oficial aquilo que a devoção popular já afirmara.
Nas palavras do primeiro Anatematismo de Cirilo de Alexandria contra Nestório: “se alguém não confessar que Emanuel é verdadeiramente Deus e que portanto a Santa Virgem é a Mãe de Deus (Theotokos), pois que dela nasceu de modo carnal e como a Palavra de Deus revestida de carne, que seja excomungado”. Além disso, foi em honra da proclamação de Maria como Theotokos pelo Concílio de Éfeso que, logo após esse sínodo, o Papa Sixto III constituiu o mais importante santuário dedicado a Maria no Ocidente, a Basílica de Santa Maria Maior, em Roma (PELIKAN, 1996, p. 84).
Ensinamos, segundo a reta doutrina, que a gloriosa, santa e sempre Virgem Maria é proclamada, pelos católicos, própria e verdadeiramente, Mãe de Deus e Mãe do Verbo de Deus, nela encarnado. Ele, de fato, nos últimos tempos, se encarnou, própria e verdadeiramente, dignando-se nascer da santa e gloriosa Virgem-Mãe. Se, portanto, o Filho de Deus nela Se encarnou, própria e verdadeiramente, e dela nasceu, por essa mesma razão confessamos que ela é, própria e verdadeiramente, Mãe de Deus, que nela Se encarnou e dela nasceu. E, na realidade, não se pense que o Senhor Jesus recebeu, por honra ou graça, o nome de Deus, como achava o tolo Nestório; como também verdadeiramente não se vá pensar que ele tomou da Virgem, não um corpo humano, mas uma aparência de corpo ou qualquer coisa de irreal (Carta Olim quidem de João II, apud COLLANTES, 2003, p. 392).
A verdade é que o novo realce dado a esse título levou os crentes a considerar com maior devoção a grandeza de Maria e seu papel junto de seu Filho. A maternidade divina de Maria constitui a mais alta missão, depois da que recebeu Cristo, na face da terra, e esta missão exige a graça divina em toda a sua plenitude.
Na verdade, desta sublime missão de Mãe de Deus nascem, como duma misteriosa e limpidíssima fonte, todos os privilégios e graças, que adornam, duma forma admirável e numa abundância extraordinária, a sua alma e a sua vida. Por isso, com razão declara Santo Tomás de Aquino que a Bem-Aventurada Virgem Maria, pelo fato de ser Mãe de Deus, recebe do bem infinito, que é Deus, uma certa dignidade infinita (NEOTTI, 2004, p. 26).
A partir do Concílio de Éfeso, a maternidade divina de Maria é doutrina da Igreja, por isso desde esse Concílio as gerações começam a proclamar Bem-aventurada a Virgem Santíssima, Santa Mãe de Deus.
No encerramento do Concílio de Éfeso, estando a cidade cheia do povo com tochas nas mãos para uma grande procissão em honra da Mãe de Deus, um anônimo redigiu uma oração que um dos bispos proclamou, e transcrevendo-a aqui encerro este item.
“Nós vos saudamos Maria, Mãe de Deus, tesouro Venerável do mundo inteiro! Luz jamais extinta! Templo jamais destruído, que abrigais Aquele que não pode ser contido! Mãe e Virgem! Por vós a Trindade é santificada! Por vós a Cruz é venerada no mundo inteiro! Por vós o santo Batismo é dado aos que crêem! Por vós é derramado o óleo da alegria! Por vós as igrejas são fundadas no mundo inteiro! Por vós os povos são conduzidos à conversão. Amém!” (NEOTTI, 2004, p. 26).
4. Maria a Santa Mãe de Deus no Concílio Vaticano II
“Que sublime humildade, é escolhida para ser Mãe de Deus e se proclama a serva.” (São Bernardo de Claraval).
Em diferentes ocasiões, o magistério da Igreja considerou a missão educativa de Maria, abordando os vários aspectos desta missão, o Concílio Vaticano II deu-nos um critério fundamental para formular retamente a doutrina mariana, como afirma Autran, “a fidelidade à Sagrada Escritura do jeito como ela é lida e interpretada pela Igreja” (1992, p. 14). A Constituição Dogmática Lumen Gentium principalmente nos números 55 a 59 é um exemplo eloqüente de como propor a figura de Maria e falar dela à luz da palavra de Deus descrita na Bíblia. Vou fixar este item nesta Constituição Dogmática.
Num momento de extrema importância da renovação eclesial, a Virgem Maria aparece, na Lumen Gentium, como estrela, como sinal para a nova humanidade, renascida e fortalecida em Jesus Cristo e no Seu mistério de amor. Avelar afirma que “é no quadro mais amplo da História da Salvação que, neste documento conciliar, a vocação-missão educativa da Mãe de Jesus emerge em toda a sua grandeza” (2002, p. 71).
Querendo Deus, sumamente benigno e sábio, realizar a redenção do mundo, “quando chegou a plenitude dos tempos, mandou o seu Filho, nascido de mulher... para que recebêssemos a adoção de filhos” (GL 4,4-5). “O qual, por amor de nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria”9. Este mistério divino da salvação nos é revelado e continuado na Igreja, que o Senhor constituiu como seu corpo, e na qual os fiéis que aderem a Cristo, sua cabeça e estão em comunhão com todos os seus santos, devem também, e “em primeiro lugar, venerar a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo”10 (LG, 52).
Enquanto o Concílio Vaticano II, fala explicitamente da maternidade de Maria, aponta para a dimensão pedagógica da existência daquela que, ao gerar à vida o Salvador, torna-se, inevitavelmente, mãe e mestra da nova humanidade, mãe e mestra espiritual de todos os seguidores de Jesus, mãe e mestra da Igreja.
Assim, o Concílio Vaticano II ampliou o horizonte de compreensão da maternidade de Maria. Renovou a interpretação de Maria e de sua missão ao utilizar critérios antropológicos, uma vez que põe Maria muito próxima de Deus e também muito próxima dos filhos de Deus (AVELAR, 2002, p. 72).
No número 53 da Lumen Gentium, o Concílio nos mostra que a Virgem Maria, na anunciação do anjo recebeu o Verbo de Deus, recebeu no seu coração e também no seu corpo, dando a vida ao mundo, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus e do Redentor. “...foi enriquecida com a sublime prerrogativa e dignidade de Mãe de Deus Filho...”, e a Igreja católica honra-a como mãe amantíssima, dedicando-lhe afeto e piedade.
A Bem-Aventurada Virgem, predestinada, desde toda a eternidade, junto com a encarnação do Verbo divino, para ser Mãe de Deus, foi na terra, por disposição da divina providência, a Mãe do Redentor divino, mais que ninguém sua companheira generosa e a humilde escrava do Senhor.
O Concílio quer esclarecer a função da Bem-Aventurada Virgem no mistério do Verbo encarnado e do corpo místico e os deveres dos homens para com a Mãe de Deus, “que é Mãe de Cristo e dos homens, em especial dos fiéis” (LG 54). 308
A Virgem Maria que foi adornada, desde sua conceição, com as belas virtudes e grau de santidade, quando ouviu a saudação do anjo que Deus enviara e que chamou-a “cheia de graça”11, prontamente responde “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”12. “Assim Maria, filha de Adão, consentindo na palavra divina, tornou-se Mãe de Jesus...” (LG 56).
Portanto, como afirmam os Santos Padres, Maria cooperou na obra da salvação de todos os homens com a liberdade da fé e obediência plena. Compararam dizendo que “a morte veio por Eva, e a vida por Maria” (LG 66). O Concílio Vaticano II, é bastante explícito em ressaltar o aspecto educativo da vida de Maria que, gerando na terra o próprio Filho de Deus Pai, pela fé e pela obediência, exerce a missão da maternidade divina, mediante a qual ela se torna também mãe, educadora e modelo da Igreja.
Essa função de Maria começou desde o início, já quando Maria estava com Deus em seu ventre. Ao visitar Isabel, leva o Senhor, e Isabel a proclama bem-aventurada porque acreditou na promessa de salvação. Essa função continua quando a Virgem Mãe apresenta seu Filho aos Magos, os quais O adoram. Ao apresentar o Menino no templo, da boca do Simeão brota a profecia da Redenção. Quando o Menino ficou no templo sozinho, Maria e José O encontram e Ele diz que estava se ocupando das coisas de seu Pai, ou seja, nossa salvação. Enquanto todas essas cosias aconteciam a Virgem Mãe guardava todas as coisas em seu coração como sabemos a partir do Evangelho.
Assim também a bem-aventurada Virgem avançou no caminho da fé, e conservou fielmente a união com seu Filho até a cruz, junto da qual, por desígnio de Deus, se manteve de pé13, sofreu profundamente com o seu Unigênito e associou-se de coração maternal ao seu sacrifício, consentindo amorosamente na imolação da vítima que havia gerado. (LG 58).
Enfim, Maria concebeu a Cristo, gerando-O, alimentando-O, apresentando-O no templo do Pai, sofrendo com seu Filho que morria na cruz, cooperando de modo absolutamente singular na obra do Salvador para restaurar a vida sobrenatural dos fiéis.
Fontes.
ALMEIDA, T. M. C. Vozes da mãe do silêncio. São Paulo: Attar Editorial. 2003.
AUTRAN, A. M. Maria na Bíblia. São Paulo: Ave Maria. 1992.
BUCKER, B.; BOFF, L.; AVELAR, M. C. Maria e a Trindade. São Paulo: Paulus. 2002.
Catecismo da Igreja Católica, Edição Típica Vaticana. São Paulo: Loyola. 2000. 310
COLLANTES, J. A fé católica, documentos do magistério da Igreja. Goiás; Rio de Janeiro: 2003.
Documentos da Igreja. Encíclicas de João Paulo II. São Paulo: Paulus. 1997.
Documentos do Concílio Vaticano II. Documentos da Igreja. São Paulo: Paulus. 1997.
DONFRIED, K. P. Maria no Novo Testamento. São Paulo: Paulinas. 1985.
LAURENTIN, R. Breve tratado de teologia mariana. Rio de Janeiro: Vozes. 1965.
MULLER, A. SATTLER, D. Mariologia. In: SCHNEIDER, T. (Org). Manual de dogmática. v. l. 3. 2. Ed. Petrópolis: Vozes. 2002.
NEOTTI, C. Imaculada Conceição de Maria. 150 anos da Proclamação do dogma. Rio de Janeiro: Marques Saraiva. 2004.
PELIKAN, J. Maria através dos séculos. Seu papel na história da cultura. São Paulo: Companhia das Letras. 1996.
ROPS, D. A Igreja dos apóstolos e mártires. São Paulo: Quadrante. 1988
SESBOÜÉ, B., A Virgem Maria. In SESBOÜÉ, B.; BOUGEOIS, H.; TIHON, P. (Dir.), Os sinais da salvação (séculos XII – XX). A História dos Dogmas, v. 3. São Paulo: Loyola. 2005.



[1]Mestrando em Teologia na PUCPR. Bacharel em Teologia pela PUCPR. Bolsista CAPES-PROSUP.
E-mail: andpp@bol.com.br.

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